Quando a preocupação não desliga — e a mente não encontra descanso
- DLR Saúde Mental e Cognitiva
- 9 de nov. de 2025
- 5 min de leitura
Todos nós nos preocupamos. É natural pensar sobre o futuro, querer evitar erros e antecipar problemas. A preocupação faz parte do funcionamento humano — ela nos prepara para agir e resolver situações.
Mas quando a mente não consegue parar de se preocupar, quando a tensão se torna constante e o corpo vive em alerta, a preocupação deixa de ser saudável e passa a ser um sintoma de algo maior: o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG).
Neste texto, vamos compreender a diferença entre a preocupação funcional e a preocupação patológica, os sintomas do TAG, suas bases científicas e os caminhos possíveis para recuperação emocional.
O que é o Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG)?
Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR, o TAG é caracterizado por ansiedade e preocupação excessivas, persistentes e de difícil controle, que ocorrem na maioria dos dias por pelo menos seis meses, envolvendo uma variedade de temas, como trabalho, saúde, finanças e relacionamentos (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2022).
Essas preocupações são acompanhadas de sintomas físicos e cognitivos, como:
inquietação ou sensação de estar “no limite”;
fadiga fácil;
dificuldade de concentração;
irritabilidade;
tensão muscular;
distúrbios do sono.
O TAG afeta aproximadamente 5% da população mundial e tende a ter curso crônico, interferindo na qualidade de vida e no funcionamento global do indivíduo (KESSLER et al., 2012).
A diferença entre preocupação normal e patológica
A preocupação normal é proporcional, temporária e orientada à solução. Por exemplo, é natural sentir preocupação antes de uma entrevista de emprego ou uma viagem importante.
Já a preocupação patológica é excessiva, generalizada e difícil de controlar — mesmo quando não há ameaça concreta. A mente fica “presa” em ciclos de antecipação negativa, como se estivesse constantemente à espera de algo ruim.
Etimologicamente, o termo “ansiedade” deriva do latim angere, que significa “apertar”, “estrangular”. É exatamente essa sensação de aperto, de estar “preso ao medo do que pode acontecer”, que diferencia a preocupação adaptativa da ansiedade patológica.
De acordo com Barlow (2002), enquanto a preocupação normal mobiliza para ação, a preocupação patológica mantém o corpo em constante ativação fisiológica, gerando estresse crônico, fadiga e dificuldade de foco.
O fator da preocupação no TAG
Pesquisas indicam que o núcleo central do TAG é o processo de preocupação. Para Wells (1999), as pessoas com o transtorno apresentam uma tendência cognitiva a superestimar riscos e subestimar sua capacidade de lidar com problemas.
Elas acreditam que se preocupar ajuda a evitar eventos negativos — um mecanismo chamado de crença positiva sobre a preocupação. Paradoxalmente, isso mantém o ciclo ansioso: quanto mais a pessoa se preocupa, mais reforça a crença de que o ato de se preocupar é necessário.
Outro aspecto importante é a dificuldade de interromper pensamentos ansiosos. Segundo Mennin et al. (2005), o TAG está associado a déficits na regulação emocional e maior reatividade fisiológica diante de incertezas. Assim, a preocupação se torna uma forma de tentativa de controle mental — que, ironicamente, apenas aumenta a ansiedade.
Os efeitos da preocupação patológica sobre corpo e mente
A ativação constante do sistema nervoso simpático leva o corpo a um estado de alerta prolongado, liberando cortisol e adrenalina em níveis cronicamente elevados. Isso resulta em:
tensão muscular persistente;
fadiga e dores corporais;
insônia e dificuldade de relaxar;
taquicardia e desconforto respiratório;
irritabilidade e lapsos de memória.
Neuroimagens mostram que o TAG envolve hiperatividade na amígdala e no córtex pré-frontal ventromedial, regiões relacionadas ao medo e à regulação emocional (ETKIN; WAGER, 2007).
Esses dados confirmam que o transtorno não é apenas psicológico, mas também neurobiológico, com mudanças reais no funcionamento cerebral.
Avaliação psicológica e neuropsicológica no TAG
A avaliação psicológica e neuropsicológica é uma ferramenta fundamental no diagnóstico diferencial do TAG. Por meio de entrevistas clínicas e instrumentos padronizados, o psicólogo identifica:
padrões de pensamento ansioso;
crenças disfuncionais sobre controle e incerteza;
impacto cognitivo (atenção, memória, funções executivas);
comorbidades associadas (como depressão e transtorno de pânico).
Essa avaliação orienta o plano de intervenção personalizado, ajudando o paciente a compreender seus padrões mentais e desenvolver estratégias de enfrentamento mais saudáveis (WELLS, 1999).
Caminhos terapêuticos baseados em evidências
O tratamento do TAG combina psicoterapia e, em alguns casos, medicação ansiolítica ou antidepressiva sob supervisão médica.
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é considerada o tratamento psicológico de primeira escolha (HOFMANN; ASNAANI; VONCKEN, 2012). Ela ensina o paciente a identificar pensamentos automáticos, desafiar crenças disfuncionais e reduzir comportamentos de evitação.
Técnicas como mindfulness e treino de aceitação também têm eficácia comprovada no manejo da preocupação e do estresse (ROEMER; ORSILLO, 2002).
Além disso, hábitos de vida saudáveis — sono regulado, alimentação equilibrada e atividade física — contribuem para a regulação do sistema nervoso autônomo e redução da ansiedade (HOFMANN et al., 2012).
O olhar humano: o poder de compreender e acolher
Viver com ansiedade generalizada é como estar sempre esperando uma tempestade que nunca chega. O corpo cansa, a mente se esgota, e o coração perde o ritmo da calma.
Mas o cuidado psicológico oferece uma pausa. Um espaço onde o paciente aprende que não é a preocupação que o protege — é o autocuidado, a compreensão e o apoio.
Com acompanhamento especializado, é possível aprender a lidar com a incerteza, a confiar no presente e a reencontrar equilíbrio entre mente e corpo.
A ajuda existe — e o caminho começa quando você decide buscá-la.
Referências
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR. 5. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2022.
BARLOW, David H. Anxiety and Its Disorders: The Nature and Treatment of Anxiety and Panic. 2. ed. New York: Guilford Press, 2002.
ETKIN, Amit; WAGER, Tor D. Functional neuroimaging of anxiety: a meta-analysis of emotional processing in PTSD, social anxiety disorder, and specific phobia. American Journal of Psychiatry, v. 164, n. 10, p. 1476–1488, 2007.
HOFMANN, Stefan G.; ASNAANI, Anu; VONCKEN, Marieke. Cognitive behavioral therapy for anxiety disorders: efficacy, moderators, and new directions. Dialogues in Clinical Neuroscience, v. 14, n. 4, p. 413–429, 2012.
KESSLER, Ronald C. et al. Prevalence, severity, and comorbidity of 12-month DSM-IV disorders in the National Comorbidity Survey Replication. Archives of General Psychiatry, v. 62, n. 6, p. 617–627, 2012.
MENNIN, Douglas S. et al. Emotion-related processes in generalized anxiety disorder: Integrating the cognitive, behavioral, and biological perspectives. Clinical Psychology Review, v. 25, n. 6, p. 975–1002, 2005.
ROEMER, Lizabeth; ORSILLO, Susan M. Expanding our conceptualization of and treatment for generalized anxiety disorder: Integrating mindfulness/acceptance-based approaches with existing cognitive-behavioral models. Clinical Psychology: Science and Practice, v. 9, n. 1, p. 54–68, 2002.
WELLS, Adrian. Metacognitive Therapy for Anxiety and Depression. New York: Guilford Press, 1999.

Comentários