A memória e o valor de lembrar quem somos
- DLR Saúde Mental e Cognitiva
- 9 de nov.
- 4 min de leitura
A memória é o elo entre o que fomos e o que estamos nos tornando. Ela guarda nossas histórias, aprendizagens e afetos. Quando falha, causa medo, frustração e até crises de identidade.
Buscar uma avaliação neuropsicológica da memória é um gesto de autoconhecimento e cuidado — um passo para compreender o que está acontecendo com o seu cérebro, suas emoções e seu desempenho no dia a dia.
“A memória é um processo dinâmico que envolve codificação, armazenamento e recuperação de informações, integrando aspectos emocionais e cognitivos” (BADDELEY; EYSENCK; ANDERSON, 2020).
O que é a avaliação neuropsicológica da memória?
A avaliação neuropsicológica da memória é um processo clínico-científico conduzido por psicólogo especializado em neuropsicologia. O objetivo é identificar o funcionamento dos diferentes sistemas de memória — de curto e longo prazo, visual, auditiva, episódica e semântica — e compreender como eles se relacionam com emoções, atenção e aprendizado.
O processo inclui:
Entrevista clínica detalhada (anamnese);
Aplicação de testes padronizados de memória e funções cognitivas;
Análise qualitativa e quantitativa dos resultados;
Devolutiva personalizada com recomendações de intervenção.
Segundo Lezak et al. (2012), uma boa avaliação integra resultados objetivos e contexto clínico, permitindo uma compreensão global do funcionamento mental (LEZAK et al., 2012).
Quando procurar esse tipo de avaliação?
Os sinais de alerta nem sempre indicam algo grave, mas merecem atenção. Procure um psicólogo especializado em avaliação neuropsicológica da memória se você:
Tem esquecido nomes, compromissos ou palavras;
Sente que “a mente está mais lenta” ou dispersa;
Já teve traumatismo craniano, AVC ou infecções neurológicas;
Possui histórico familiar de Alzheimer ou demência;
Nota dificuldades de aprendizado, concentração ou desempenho no trabalho;
Sofre de ansiedade, estresse ou depressão e percebe impacto na memória.
Pesquisas mostram que medidas de memória são altamente eficazes para detectar alterações cognitivas precoces, com sensibilidade e especificidade superiores a 85% (WEISSBERGER et al., 2017).
Por que a avaliação neuropsicológica é tão importante?
Porque ela distingue o que é normal do que precisa de cuidado. Muitas vezes, o esquecimento é consequência de estresse, sono irregular, sobrecarga emocional ou depressão — e não de um problema neurológico.
A avaliação ajuda o paciente e o profissional a entender:
se há alteração significativa da memória;
quais áreas cognitivas estão preservadas;
o papel das emoções e da atenção no funcionamento mental;
e quais estratégias práticas podem melhorar o desempenho.
Além de diagnóstico, é uma forma de prevenção e promoção de saúde cerebral, como reforçam Cicerone et al. (2019), que evidenciaram melhora significativa em atenção e memória após reabilitação cognitiva baseada em evidências (CICERONE et al., 2019).
O impacto emocional da perda de memória
Esquecer pode ser doloroso. Muitos pacientes relatam medo de “estar ficando doente” ou “não ser mais o mesmo”. Essa angústia é legítima — e por isso o cuidado deve ser integral.
Estudos mostram que estresse crônico, ansiedade e depressão estão entre as causas mais comuns de prejuízo mnemônico reversível (GOLD et al., 2020). Assim, a avaliação não serve apenas para medir a memória, mas para reconhecer as causas psicológicas e emocionais do esquecimento, favorecendo um plano terapêutico mais humano.
O cérebro pode se adaptar: neuroplasticidade e esperança
O cérebro tem uma capacidade impressionante de adaptação. Mesmo diante de lesões ou declínios cognitivos leves, é possível reorganizar redes neurais e recuperar funções, graças à neuroplasticidade.
Pesquisas em neuroimagem mostram que exercícios cognitivos e estimulação adequada fortalecem regiões cerebrais associadas à memória (CANTLON; LI; RICHLAN, 2021).Isso significa que, com acompanhamento especializado, é possível melhorar a memória e a qualidade de vida — independentemente da idade.
O que acontece depois da avaliação?
Com base nos resultados, o psicólogo elabora um plano de reabilitação cognitiva ou treinamento de memória, que pode incluir:
Estratégias de organização e rotina;
Exercícios atencionais e de memória de trabalho;
Técnicas de relaxamento e controle emocional;
Orientação familiar;
Encaminhamento médico, se necessário.
A intervenção é personalizada e centrada na pessoa — cada cérebro tem um modo único de aprender e se reorganizar.
Conclusão: lembrar é continuar sendo você
A memória guarda nossas emoções, vínculos e sonhos. Quando algo muda, é natural sentir medo — mas buscar ajuda é o primeiro passo para compreender e cuidar.
A avaliação neuropsicológica da memória é mais do que um exame: é um encontro entre ciência, empatia e autoconhecimento.Ela permite enxergar o funcionamento do próprio cérebro, compreender seus limites e potencialidades, e recuperar o equilíbrio entre mente, emoção e vida.
Se você tem notado mudanças na memória, não espere.Procure um psicólogo especializado em neuropsicologia clínica.Cuidar da mente é também cuidar de quem você é — e de tudo o que deseja lembrar.
Referências
BADDELEY, Alan; EYSENCK, Michael W.; ANDERSON, Michael C. Memory. 3. ed. New York: Psychology Press, 2020.
CANTLON, Jessica F.; LI, Qing; RICHLAN, Fabian. Neural plasticity and memory reorganization in cognitive aging: A neuroimaging synthesis. Nature Reviews Neuroscience, v. 22, n. 4, p. 237-252, 2021.
CICERONE, Keith D. et al. Evidence-based cognitive rehabilitation: Updated review of the literature from 2012 through 2017. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation, v. 100, n. 8, p. 1515-1533, 2019.
FRONTIERS IN HUMAN NEUROSCIENCE. Rethinking neuropsychological test validity in dementia assessment: a critical review in the age of neuroimaging and digital markers. 2025. Disponível em: https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fnhum.2025.1578648/full.
GOLD, Steven M. et al. The impact of stress and mood on memory performance: a meta-analysis. Psychological Bulletin, v. 146, n. 9, p. 753-786, 2020.
LEZAK, Muriel Deutsch et al. Neuropsychological Assessment. 5. ed. Oxford: Oxford University Press, 2012.
WEISSBERGER, Gabrielle H. et al. Diagnostic accuracy of memory measures in Alzheimer’s dementia and mild cognitive impairment: A systematic review and meta-analysis. Neuropsychology Review, v. 27, n. 4, p. 354-388, 2017.

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